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Divórcio: Começar de novo

Mary Alayne Thomas (17) mulher pássaro m

Tínhamos acabado de regressar de umas férias na neve e as malas, cheias de camisolas de lã e casacos, ainda não tinha sido desfeitas. Sabia bem regressar a casa.
De repente, o meu marido, que estava na nossa casa de banho, chamou por mim. Quando me aproximei dele, virou-se e disse:
— Quero o divórcio.
Disse-o no mesmo tom em que diria:
— Esta gravata é nova.
Eu era mãe a tempo inteiro, com três filhos e uma filha, um verdadeiro furacão multifunções de dia e um redemoinho de noite. O meu marido também era um furacão multifunções, o bem-sucedido diretor de uma grande companhia que viajava pelo país no jato da empresa.
O anúncio atingiu-me como se fosse a notícia da morte de um ser amado devido a uma vulgar constipação. Traumático e absurdo. Os bons casamentos não acabam em divórcio. Claro que tínhamos problemas, mas eram obstáculos perfeitamente superáveis. E os nossos filhos, de oito, seis e quatro anos? Os nossos sonhos? E eu? De repente, senti-me velha, apesar de só ter 41 anos.
A decisão dele estava tomada. A única justificação que me deu foi:
— Não sou feliz a teu lado.

*

Sozinha na escuridão, encontrei novas amigas. Chamavam-se Autocompaixão, Culpa e Negação.
A minha amiga Culpa concentrou-se no meu marido:
— A culpa é toda dele! Enganou-te e traiu-te! Fingiu que tudo corria bem durante vinte anos. Nunca disse que se sentia infeliz e agora resolve erguer uma parede entre vós e diz que é demasiado tarde para salvar o casamento.
A minha amiga Negação acusou-o de estar a passar por uma crise de meia-idade e mencionou o óbvio:
— Está mas é a reviver os vinte anos, a andar de mota para todo o lado e a sair com uma mulher com metade da idade dele! Não penses que ele tem problemas conjugais ou questões de realização pessoal. Esta fase vai acabar por lhe passar e ele vai voltar para casa.
Depois da rutura e durante seis meses, só conduzi para onde os meus filhos precisavam de ir. Detestava encontrar pessoas conhecidas, sobretudo aquelas que gostavam de me contar que tinham visto o meu marido com alguém.
O Wal-Mart tornou-se uma dádiva do céu e fazer compras de madrugada uma verdadeira tábua de salvação. Na maioria das vezes nem entrava na loja. Ficava no parque a lembrar-me do passado e a chorar dentro do carro. Um dia fui à secção da mercearia com a minha amiga Autocompaixão. Passei em revista todos os produtos lácteos orgânicos que o meu marido gostava de comprar. A Autocompaixão passava a vida a chamar-me “falhada” e já me tinha feito perder a vontade de passar na secção dos lacticínios. Quando me mandou pesar à saída, a rejeição que senti da parte dela deixou-me de rastos.

Cansei-me de me sentir frágil. Cansei-me de estar sempre deprimida. Uma noite, fui ao quarto dos meus filhos e beijei-os. Depois peguei em duas toalhas grossas de praia e coloquei-as na porta que levava à garagem. Estava a pensar suicidar-me. Um ano de tristeza constante tinha-me levado ao desespero, à falta de alegria, à falta de qualquer alívio. Liguei a ignição, fechei os olhos e esperei. Enquanto dormitava, percebi que os gases tóxicos iriam atravessar as toalhas e envenenar os meus filhos. A ideia de que iriam morrer sufocados pela minha cobardia foi um choque de alta voltagem que me acordou daquele desejo louco de morrer. Nem conseguia acreditar que tinha chegado àquele ponto!

*

No ano que se seguiu, abri o meu coração à sabedoria de alguns líderes espirituais. Ao nascer do sol, meditava com o Dalai Lama. A meditação ajudava-me a viver o momento presente e libertava-me da carga de pensamentos dramáticos sobre o passado e o futuro. A culpa mantinha-me amarrada a um passado que eu não podia alterar e a preocupação mantinha-me amarrada ao medo de um futuro que não podia controlar. As dores que sentia no peito foram desaparecendo gradualmente. Escutava, finalmente, o pedido do meu corpo para respirar de forma diferente, para viver de forma diferente.
Mohandas Gandhi iluminava-me a noite com histórias acerca de aceitação, de perdão e de amor incondicional. Aprendi a aceitar que nunca compreenderia as razões do meu divórcio. Perdoei ao meu marido a dor que me tinha feito passar e perdoei-me por me ter mantido a mim própria agarrada a essa dor.
Aprendi que não encontraria felicidade se me mantivesse inflexível face às mudanças que a minha vida requeria. Quanto mais resistisse à realidade, mais continuaria a sofrer. Tinha estado à espera de que o meu marido mudasse de ideias quando quem precisava de mudar de ideias era eu.
As vozes negativas que ouvia na minha cabeça desapareceram. Deixei de acreditar nas suas mentiras. Quando o medo e a rejeição insistiam que eu não era suficientemente capaz, desafiava os seus pressupostos. Os meus medos baseavam-se em verdades ou em crenças limitativas? A verdade é que fui sempre suficientemente boa, digna e forte. A verdade é que sempre tive a escolha de me libertar.

*

Neste momento, o meu ex-marido e eu temos uma relação amigável e os nossos filhos são educados por pais que, apesar de divorciados, estão de acordo nas decisões mais importantes. E eu continuo a partilhar a redescoberta da minha coragem com famílias que enfrentam mudanças difíceis nas suas vidas. É minha missão profissional e pessoal empoderar os outros e ajudá-los a redescobrir a sua força e verdade interiores.
Todos os dias exprimo a minha gratidão ao desfrutar da vida e da família que pude construir, há três anos, com um homem maravilhoso, uma verdadeira alma gémea.

Mikita Orosz

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