Mulheres entre o público e o privado II
Setembro 29, 2007 at 9:01 am | In desigualdade, família, homem-mulher, injustiça, machismo, patriarcado, sexismo, sociedade | Leave a CommentTags: mulher, trabalho
Lígia Amâncio e outros (org.)
O longo caminho das mulheres
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007
Excertos adaptados
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Mulheres entre o público e o privado.
As normas ideais de divisão do trabalho
Na óptica do «ideal abstracto», nível que permite aferir a legitimidade da ideia de igualdade de género na família, constatamos que tanto no trabalho profissional como no doméstico predomina a norma de igualdade absoluta – 70,6% das inquiridas acha que o casal deveria dividir todas as tarefas domésticas e 77,9% pensa que ambos deveriam trabalhar fora de casa. As normas de «desigualdade atenuada» (o modelo da «ajuda» – o homem ajuda em casa, a mulher ajuda fora de casa) são mencionadas por um número ainda considerável de mulheres, mais a nível do trabalho doméstico (27,8%) que do profissional (16,0%). A desigualdade em ambas as esferas reúne, por seu lado, um número diminuto de respostas, evidenciando a hegemonia da ideia de igualdade absoluta ou pelo menos parcial (a ajuda).
QUADRO l
Norma ideal de divisão do trabalho doméstico (n = 1774)
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Pensando nos casais em geral acha que. . . |
% |
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Igualdade |
O casal deve dividir todas as tarefas domésticas |
70,6 |
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Ajuda |
O marido deve dar uma ajuda |
27,8 |
|
Desigualdade |
A mulher deve fazer tudo sozinha |
1,5 |
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Total |
100,0 |
QUADRO 2 Norma ideal de divisão do trabalho profissional (n=1774)
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Pensando nos casais em geral acha que. . . |
% |
|
Igualdade |
Ambos devem trabalhar fora de casa |
77,9 |
|
Ajuda |
A mulher deve dar uma ajuda se necessário |
16,0 |
|
Desigualdade |
Deve ser só o marido a trabalhar fora de casa |
6,1 |
|
|
Total |
100,0 |
Apesar da maioria de disposições igualitárias, as posições das mulheres, no espaço e tempo sociais, vêm introduzir variações significativas.
Quanto mais elevada a escolaridade, maior a afirmação da igualdade ideal entre os cônjuges, tanto na esfera doméstica como na profissional, atingindo mais de 90% de respostas nas mulheres licenciadas. Inversamente, o modelo de ajuda sobressai nas mulheres sem escolaridade ou apenas com o ensino primário. São também estas mulheres que optam, na esfera profissional, pelo modelo de ganha-pão masculino em cerca de 9% dos casos. Em termos gerais, a variação das normas ideais de divisão do trabalho mostra um cenário social significativamente diferenciado, ficando num extremo a «vanguarda modernista», encabeçada pelos grupos mais escolarizados, e no outro a «tradição institucionalista».
Notas finais
À guisa de conclusão, importa ressaltar que a predominância de normas igualitárias enquanto dever-ser da divisão do trabalho entre cônjuges é uma realidade no Portugal contemporâneo, inclinação que tem vindo, ao longo do tempo, a acentuar-se sobretudo no campo profissional. Produziu-se assim um certo desencontro entre igualdade doméstica e igualdade profissional, discrepância com que muitas mulheres, em alguma medida, legitimam a sua dupla jornada de trabalho. A tendência igualitária dominante assume, entretanto, um peso maior ou menor consoante os contextos sociais. Mulheres mais escolarizadas afirmam a norma igualitária de modo mais marcado. Mulheres com baixos níveis de escolaridade acentuam menos esta norma, sobretudo no campo doméstico, já que a igualdade profissional é sempre mais transversal no discurso feminino.
No entanto, apesar de todas as ambivalências, é inegável que um eixo de mudança, particularmente influente no contexto histórico português, sinaliza a adesão a ideais de igualdade de género, a par, na prática, com a massiva expansão do trabalho profissional feminino, mesmo quando existem filhos pequenos no núcleo familiar. Apesar da continuidade das desigualdades entre homens e mulheres, a eleição de normas igualitárias parece situar-se no vértice da erosão dos aspectos mais institucionalistas da família, contribuindo para a aproximação a lógicas mais modernistas, no plano dos valores. Ressalta, apesar de as práticas se manterem tão frequentemente marcadas pela desigualdade de género, a importância da incorporação da igualdade como dever-ser.
No sentido em que, na actualidade, a vida privada e a pública imensamente se entrelaçam, contrariando as teses mais radicais sobre a privatização da família, a primeira é, como vários autores sustentam, cada vez mais atravessada por mecanismos que são próprios da segunda. Em Portugal, a história recente implicada nas transformações que o 25 de Abril promoveu, difundindo ideais democráticos, terá talvez contribuído para a afirmação tão expansiva de uma retórica da igualdade, que possivelmente extravasou progressivamente da esfera pública para a esfera privada. Embora a popularidade da ideia não seja solidária de uma transformação radical das maneiras de fazer ao encontro da, por muitos desejada, igualdade de género, a adesão à norma produziu concerteza transformações modernistas de relevo. De mais relevo ainda no mundo do trabalho profissional que no doméstico, repita-se. Com efeito, parece lícito dizer-se que mais rapidamente as mulheres ganharam o direito legítimo à sua independência económica do que os homens conquistaram espaço no universo doméstico. Na prática, as diferenças entre os indivíduos, cada vez mais compreendidas como «vocacionais» e subjectivas, nutrem-se das identidades de género, ainda cheias de traços de polaridade tradicional, mais do que tem peso a valorização activa da igualdade e da singularidade do self, proporcionada pela incorporação de certos valores modernistas. Evidentemente, também isto existe, mas com menor expressão.
Sofia Aboim Inglez
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