A honra das Iraquianas
Setembro 29, 2007 às 9:39 am | Na categoria desigualdade, família, injustiça, machismo, mundo, opressão, patriarcado, sexismo, sociedade, submissão, violência | Deixe o seu comentárioChristine Ockrent (org.)
O livro negro da condição das mulheres
Lisboa, TemaseDebates, 2007
Excertos adaptados
REPORTAGEM: A HONRA DAS IRAQUIANAS
Cécile Hennion
Desde que o caos se instalou no Iraque, os «crimes de honra» multiplicaram-se. Dizem respeito tanto à sociedade civil como às prisioneiras iraquianas que se supõe terem sido violados durante a sua detenção. Encontramos os cadáveres na morgue de Bagdade, de mão cortada.
A 28 de Abril de 2004, a cadeia americana CBS desencadeava um escândalo que daria a volta ao planeta difundindo fotografias de prisioneiros iraquianos torturados na prisão de Abou Ghraib pelas GI da 372.a companhia. Nos dias que se seguiram, a imprensa mundial publicou, por sua vez, imagens de simulações sexuais e pornográficas. Depois surgiram testemunhos arrasadores e acusações a soldados e oficiais americanos. O rosto democrático dos Estados Unidos da América sofria um golpe fatal. A reprovação foi unânime. Mas, em Bagdade, a «vergonha» era o sentimento dominante. Alguns iraquianos não hesitaram em colocar ao mesmo nível os carrascos e aqueles que tinham ousado tornar pública «a sua desonra». No Iraque, não se brinca com o sexo…
Em finais do ano de 2003, uma carta «assinada» pelas prisioneiras de Abou Ghraib circulava pelos meandros da guerrilha sunita. As suas autoras evocavam as violações e as torturas sofridas e suplicavam aos mujahidines que atacassem a prisão, para «que elas pudessem morrer». As prisioneiras não queriam ser «salvas», e pediam para «morrer». A tradição tribal iraquiana não lhes deixa, na realidade, alternativa: uma mulher «conspurcada» pela violação ou por um acto sexual fora do casamento, põe em perigo a honra da sua família e de toda a sua tribo. Uma violação desencadearia represálias mas, antes de mais nada, a eliminação da «sujidade», através da eliminação física da mulher.
«Para um homem, a violação é a humilhação suprema», explica Houda Al-Azzawi, uma mulher de negócios abastada do tempo de Saddam Hussein que esteve sete meses presa em Abou Ghraib. «Mas, para uma mulher, é a condenação à morte pela sua própria família.» Como todas as prisioneiras libertadas, Houda jura que se manteve «digna» e, entre todas as torturas sofridas, ela jamais mencionará a violação. A sua fortuna, influência e a idade (quarenta anos) foram-lhe certamente mais úteis que as suas afirmações. No entanto, pouco depois de o escândalo ter rebentado, estava ela ainda detida, o marido exigiu o divórcio.
No Iraque, o crime de honra é mais a regra que a excepção
Amai Khadum Swadi, advogada de muitas prisioneiras políticas iraquianas, conta que «depois de terem recuperado as suas filhas detidas em Abou Ghraib, várias famílias foram pedir aos imãs da mesquita a que pertenciam uma fatwa que lhes concedesse a autorização para as matar. Sei que isto é algo de chocante para um ocidental», esclarece, «mas trata-se de uma reacção normal para os Iraquianos.
Embora a sua árvore genealógica lhe confira a honra de ser uma «descendente directa do Profeta», Amina tem uma visão muito moderada do islão. Esta mãe de família viveu muitos anos no estrangeiro, aceita de boa vontade um copo de vinho e possui um guarda-roupa fabuloso. Amina, que é, então, uma mulher moderna, considera «injusto» que as prisioneiras ou vítimas de violação sejam executadas, uma vez que «não são responsáveis pelo sucedido». Pelo contrário, entende os crimes de honra como «justificáveis» quando condenam mulheres que sucumbiram deliberadamente à tentação do sexo fora do casamento. A proximidade com a prevaricadora pode, contudo, alterar este ponto de vista radical. Amina conta como uma das suas parentes, solteira e grávida, lhe confiou a situação em que se encontrava. Amina salvou-a, convencendo o pai a assumir as suas responsabilidades e a família a aceitar aquele homem como genro. O segredo vergonhoso não chegou a ser descoberto. Todos fingiram não reparar que aquela gravidez foi demasiado curta. A jovem mãe foi poupada.
Não existem dados fiáveis relativamente ao número de crimes de honra no Iraque. Sempre foram a regra, mais do que a excepção, mesmo antes do regresso em força do islamismo sunita e xiita, após a intervenção americana de 2003. Se os crimes aumentaram nos dois últimos anos, as razões não estarão tão ligadas a este radicalismo como ao caos que se instalou no país.
Outubro de 2004. Neste início de Ramadão, por toda a parte se ouve falar de raptos e assassínios. As embaixadas receiam pelos seus cidadãos. No Iraque, os habitantes vivem esta nova fase da guerra dominados pelo pânico. Os raptos e homicídios fazem parte do quotidiano. A Polícia, mal preparada e mal equipada, revela-se incapaz de fazer frente ao flagelo. Como afirma o pai de Hamza, um adolescente raptado: «Ao contrário do que pensam os estrangeiros, as primeiras vítimas destes raptos são os Iraquianos.» E as Iraquianas.
A mão cortada prova que a mulher foi morta
Na morgue central de Bagdade, o Dr. Qáiss Hassan insistiu, de início, em falar apenas dos homicídios em geral, da violência e da insegurança. Pouco a pouco, a questão das vítimas femininas é finalmente abordada. Este tema é de tal forma tabu que a boa vontade do médico ao divulgar as informações é uma surpresa. A sala adjacente ao seu gabinete assemelha-se a um museu de horrores. As paredes encontram-se revestidas de fotografias de vítimas de homicídios por explicar, o chão e as prateleiras guarnecidos de boiões contendo membros humanos mergulhados em formol. «Há vítimas de ajustes de contas entre clãs, de raptos que macularam as mulheres, vítimas de crimes de honra, na sua maioria», revela. «Estes últimos casos são os mais fáceis de detectar», explica, apontando as fotografias. «Os corpos são frequentemente encontrados desnudados, lacerados, nomeadamente no ventre e nos seios, e caracterizam-se pela amputação, geralmente de uma mão, que nunca chega a ser encontrada. A mão cortada constitui a prova, dada pela família ao chefe da tribo, de que a rapariga foi morta e a honra do clã preservada.»
O Dr. Hassan mostra-se desolado com este costume, até porque, com a multiplicação dos raptos de mulheres, o número de cadáveres de mão cortada — anónimos e nunca reclamados pelos seus próximos — não pára de aumentar. «Quando uma rapariga é raptada, os pais concluem geralmente que ela foi violada, pelo que ela é imediatamente morta. Já me aconteceu constatar, no momento da autópsia, que algumas eram efectivamente virgens: a pressão tribal e o medo da desonra pesam mais que a palavra das vítimas ou a compaixão que devia suscitar o facto de terem sido raptadas. Assim, são assassinadas pelas suas próprias famílias.»
Quando são encontradas vivas pela Polícia, as jovens são sistematicamente sujeitas a um exame destinado a verificar a sua virgindade. Isto desde sempre, segundo o Dr. Hassan. «Quaisquer que sejam os ferimentos aparentes, o útero é a primeira coisa a merecer a atenção dos especialistas. Em seguida, são devolvidas à família com um certificado atestando que não foram desfloradas. Ou que foram.» Sem qualquer conversa com os pais, sem que o assunto seja seguido… Até ao próximo cadáver, com uma mão amputada, encontrado na esquina de uma rua sombria.
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